Redundâncias da vida (Parte 1)

2 de Setembro de 2009 at 18:06 (Reminiscências de um Louco)

Muito ocorreu nesta ultima semana e no entanto não arranjo vagar para escrever. Se é das 12 a 15 horas de sono que tenho vindo a ter ou se é da minha preguiça ou se é por causa que estou a ler uns 30 capítulos de Hunter X Hunter por dia nunca saberei. No entanto, e por mais aborrecida que pareça este cenário da minha vida, durante esta semana aconteceram coisas relativamente interessantes.

Em primeiro lugar, entre 2ª a 4ª feira tive a oportunidade (um pouco condicionada pelas condições que tanto eu como os meus pais me impuseram) de arrumar o meu quarto. ARRUMAR O MEU QUARTO. Não é uma frase que estou muito acostumado a dizer, quanto mais a repetir. Isso porque um quarto é, em suma, a representação física, espiritual e até simbólica da condição de vida que as pessoas que nele residem tem. É algo único, um ser vivo que respira tudo o que fazemos nele e a ele. Poetas diriam que teria alma, mas Caeiro diria que não. Paradoxo à parte, se acreditarem em Feng-Shui ou em qualquer outro tipo de materialização de correntes de energia (e aqui apercebo-me do vicio em que estou metido no momento da escrita) continuem a ler. Se forem restauradores, curadores de museus ou até engenheiros com um olho para detalhes, também podem ler isto, já que é um exemplo perfeito de perfeccionismo obsessivo levado ao extremo. É pena que não tenha fotos, ou até que tenha chamado os tipos do “Querido, mudei a Casa”, mas como no vosso tempo ainda não terei esposa e como a máquina estava ocultada onde sempre esteve, não disponho de fotografias. Apenas disponho de um esquema feito à rasca (caso precisasse) que pela falta de informação relativa (porque para mim aquilo diz tudo) não vos diria nada. No entanto há poucas, senão nenhumas, diferenças entre o estado Antes e Depois: só um par de livros e mais umas coisas sem importância foram activamente mudado de sitio.

Então comecemos pelo inicio: a proposição. O meu quarto tem pouco espaço, penso que 5 por 7 metros, o que impedia que fosse mover coisas volumosas (como a cama que está no meio, encostada à parede oeste) para fora do quarto. Metade do meu quarto tem móveis que não podia mover: do lado norte, ao pé da porta, encontravam-se uma estante alta, 2 metros e meio de altura e 70, 80 centímetros de largura, onde guardava todos os livros que se tinham deparado ao meu encontro, mais os do 10º Ano (no topo encontrei um jogo do Bloco de Esquerda que nunca tive a oportunidade de jogar, mas via-se logo a intenção deles) e antes desta uma estante mais pequena em altura, mas mais larga, onde guardava os meus produtos de higiene pessoal (o único que uso é a lamina de barbear, já que os desodorizantes no máximo só resultam por 3 horas) e por baixo deles estavam os meus livros do 9º Ano (incluindo as folhas e o livro religiosamente preservado onde, no inicio desse ano lectivo, tinha vomitado em cima deles, pela “ingestão de uma mistela repugnante, mas normalmente saborosa, a que os mediterrânicos designam de sopa de espinafres, provavelmente estragada”). Ainda por baixo estava uma série de revistas antigas de informática, a maioria das autorizações que tinha do clube de Xadrez e umas caixas onde guardava uma série de disquetes. Por coincidência um rato pequeno, dum tamanho de um telemóvel (má comparação eu sei), se refugiou nessa parte da estante no meio da noite, o que me impediu de prosseguir uma noite confortável, pelo menos até ás 4 da manhã, altura em que desertou o local. No lado mais afastado estava outro molhe de revistas antigas e uma colectânea de 3 volumes sobre a 2ª Guerra Mundial, assim como uma mala que nunca usei e uns volantes (ou penas) que 2 vezes usei.

Do lado oposto, ao pé das janelas, está um armário colossal, 1 por 2 por 3 metros, onde guardo, alem da roupa que não visto, todos os jogos de tabuleiro que tenho, todas as fitas VHS que tenho (embora a maioria seja Pokemon), todos os carregadores e adaptadores que não uso. Nas ultimas duas “caixas” estão uma série de “First-Aid Kits” e uma molhada de lenços que era suposto dar ás pessoas que mos “emprestaram” (ou deram, já que ninguem quer um lenço que esteja sujo, a não ser um cientista louco) e um molhe de documentos sobre _____(blank) assim como um tabuleiro de xadrez que gostaria mesmo de voltar a usar. Em cima desse armário está um globo, uma experiência do 7º ou 8º ano de Área Tecnológica (esqueci-me do nome), as minhas raquetes absolutamente tortas de Badminton e uma série de atlas que arranjei de uma competição de Geografia do 9º ano que lamento ter perdido com uma pessoa que acabaria por admirar muito. Pegado a esse móvel, do lado norte, está um móvel preto, pequeno, com rodas para que de facto se mova, onde toda a minha vida (ou pelo menos os últimos 6 anos) se encontram. E outra vez pegado a este está uma caixa daquelas que se compra na “Loja do Gato Preto” que supostamente servia para deitar a minha roupa suja: tomou uma viragem para o revés, a roupa limpa e que ia usar ficava em cima dele, a suja ia para o chão (solução simples e prática).

Do outro lado, ao pé da parede oeste e das janelas encontra-se a mesa que alberga o dinossauro (se não se lembram do que é, procurem) e entre essa secretária e a minha cama está uma cómoda que alberga o meu candeeiro e um despertador curiosamente atrasado umas n horas e uns n dias, já que, por choque, foi-se abaixo e por preguiça, não o reiniciei para as horas actuais.

Entre o dinossauro e o armário encontra-se uma cadeira que alberga uma grande parte da minha vida. Debaixo dela, numa almofada, sentava-se todo o material que usei durante o exame de Físico-Química (manuais dos 2 anos, manual de apoio, livros dos 2 anos). Em cima, num monte que teria facilmente 1 metro, estavam todos os livros que usei durante o 11º e o 12º Anos, assim como uns diplomas de participação em inúmeras provas. Ao lado estava um molhe de lixo e as minhas duas malas, uma verde para todas as ocasiões e uma azul, que provavelmente usarei na Universidade também.

Saltando a Invocação (por que agora me apercebi que isto é épico), passo à Dedicatória. A quem dedico esta ode ou até esta demanda, esta ventura por terras desconhecidas? Afinal de contas seria a ninguém. A única razão porque fui “forçado” a arrumar o meu quarto foi porque estávamos à espera de uns convidados que supostamente ficariam cá o fim de semana. Ficaram só pelo domingo, mas continuaram a ser chatos, como todos são. Então, para satisfazer o meu ego, digo que dedico esta dedicatória e até esta Índia a mim, já que quem fez tudo fui eu, e fui eu que, sem ter visto recompensa que a razão quisesse, por meios nunca antes tentados, por mares nunca antes navegados, grande e perigosa foi, a prosa deste herói.

Agora a narração, não em meio do Mar, mas no inicio de tudo. A primeira coisa que fiz foi por os livros todos que estavam na cadeira para cima da minha cama, para não só tirar a cadeira de lá, como ter espaço para tirar todas as coisas de debaixo da minha cama. O móvel com as rodas e a caixa da roupa também foram para fora, assim como os livros da 2ª Guerra Mundial, as malas e outras coisas que não mencionei antes (como uma caixa que por cima tinha uma moldura digital que nunca usei realmente). Ah pois, e os cortinados também foram para lavar. Isto obviamente criou um problema na movimentação de pessoas já que o corredor ficou mais estreito.

Facto seja facto, uma história vivida será contada de maneira diferente. As que de detalhes prescindem, são as mais reais. As que de detalhes vivem, são as que mais se dispersam, pois os detalhes perdem-se na trama que se cria durante a vida.

Talvez me esteja a dispersar aqui e omita uns detalhes ou até na organização da história esteja realmente a começar in média res, mas para todos os efeitos, o fim e o inicio são os mesmos, o meio é perto do real, e se alguém se recordar é porque foi real o suficiente. Com isto não me fico a lembrar se arrumei a estante com os meus produtos de higiene 1º, mas pelo bem da lógica fragmentada, fiquemos com esta história.

Depois de tirado todos os móveis verdadeiramente móveis do quarto, comecei a tirar as coisas que estavam por baixo da cama. Na maioria eram caixas onde guardava uma grande quantidade de coisas que nunca iria usar. Dentro de uma dessas caixas estavam uma outra série de caixas de cartão dos meus jogos de PC que tinha comprado (conseguia-se ver a do Civilizations III, será que viveremos numa caixa, dentro de outra caixa…… se M.C.Escher estivesse cá). Alem das caixas estava também a minha HP antiquíssima (os tinteiros são do tamanho de tijolos pequenos) e também o meu scanner HP não tão antigo, que simplesmente não uso porque tenho uma multi-funções neste PC e porque não tenho negativos que queira passar para o PC (agradou-me ver um scanner com essa funcionalidade). Também estavam presentes uma outra molhada de revistas antigas e uns dossiers. Pude tirar tudo para o (naquela altura) vago espaço entre a janela e a cama. Então aspirei.

Lição de vida: o pó só se acumula em superfícies horizontais abertas ao ar. Logo, para prevenir ver as marcas de tudo o que esteve debaixo da cama basta te-las inclinadas. É claro que isso é impratico(estranhamente o corrector não reconhece isto como palavra, tinha de dizer), pelo que não saímos do mesmo sitio. A quantidade de pó que havia os meus pais diriam que era excessiva, mas eu, como não me incomodo com aquilo que não se mexe, nunca me fez diferença a existência do pó. No entanto aspirei. E depois lavei. E esperei que o chão secasse. E fui jogar Ascendancy por 10 minutos, até que todas as civilizações declaram guerra a mim. E voltei a por tudo de novo.

Claro que limpei tudo o que havia do pó existente antes de voltar a por no limbo. As 3 caixas pequenas para o oeste, a trotineta (ou como se chama, porque nunca a usei) para cima delas, os dossiers para o lado das caixas. A caixa grande para o meio do espaço, a ver a janela está a impressora e do lado oposto um par de malas de pele. Do lado este consegui por os documentos que lá haviam numa caixa (que não consegui fechar); as revistas continuaram no mesmo sitio, ao pé destes documentos, no chão (por cima encontram-se as minhas medalhas que ganhei, que também foram limpas e repostas no mesmo sitio).

Então já tinha limpo o espaço correspondente à minha cama, 1/4 do meu plano esta completo. E demorou-me o dia inteiro. No fim da tarde decidi limpar os vidros. Agora é terça feira. E vou limpar os dois móveis que estão ao pé da porta. Primeiro tive de tirar tudo o que estava em cima das duas estantes. Voltando a usar o espaço vazio, pus meticulosamente tudo o que havia, como se criasse uma réplica do espaço onde estavam antes, tudo o que estava na estante do 9º Ano e dos produtos de higiene. Tudo o que estava na outra estante pus em cima da cama. E então envernizei as estantes. Tratei-as contra o bicho e aproveitei para ver onde estava o rato. Agora vinha a pior parte: aspirar lavar e aspirar de novo.

Entre a parede e a cama só tenho ai 1 metro e pouco de largura, pelo que para estar a limpar tudo, tive de fazer um sistema de rotação: primeiro limpava uma parte, passava os moveis para a parte limpa e depois limpava a outra parte. Depois de ter limpado todos os livros, voltei a por praticamente tudo como estava. As únicas diferenças são que ficou tudo um pouco mais encaixado, e todas as autorizações, em vez de fazerem uma rampa, estão todas por debaixo do pisa-papeis que é a caixa laranja onde guardo as disquetes. Cheguei a encontrar o jogo do Pokemon Azul escondido numa caixa que estava no topo da estante dos livros. Antes do dia acabar, decidi tratar da cadeira titânica: tratamento de verniz, anti-pó, anti-bicho, tudo para preservar a sua potência inexplorada.

Agora estamos em 4ª feira, e o fim do plano estava ao pé. Era altura de limpar o dinossauro e o armário. Então foi praticamente o mesmo processo que se usou anteriormente: moveu-se o armário, aspirou-se (com detalhe para o buraco que atravesso o meu quarto por causa do cabo da Cabovisão, já que se suspeitava de invasão insectoide), lavou-se, limpou-se e pronto. O dinossauro é que seria mais difícil. Por cima da secretária, alem do colossal monitor CRT estava uma série de tralha reminiscente dos meus dias estudantis. mais em baixo, semi-descoberto estava o teclado, o rato e uma cópia de “A Linguagem Moderna da Arquitectura” de Bruno Zevi. Por cima estava o meu carregador de pilhas e mesmo ao lado, esta um monte de 30 e tal pilhas AAA (as pequenas) que numa promoção do Jumbo comprei por 4€ e que agora esgotei todas. Duas pilhas vermelhas da Uniross deram mais potência do que elas todas juntas (lição: comprem pilhas recarregáveis de alta performance), mesmo que demorem 13 horas a recarregar.

Tirei tudo o que não estivesse pegado definitivamente ao dinossauro, ou seja, teclado, rato, colunas, lixo, livro, foram todas para limpar. Após ter limpado tudo, voltei a por tudo no mesmo sitio, embora que houvesse uma optimização geométrica (pelo menos na parte do lixo de cima). Os cabos que antes estavam no chão ficaram confortavelmente numa divisória que só tinha usado por causa de puzzles antigos (que agora arrumei no armário) e da toca e óculos de natação antigos (que agora pairam no esquecimento). Era já de noite, pelo que deixei o resto para 5ª.

Então finalmente a jornada acaba. Todo o chão foi submetido a outra lavagem, para cobrir quaisquer partes que tenham escapado. A cadeira é reposta quase cerimonialmente, e com um pincel limpo cuidadosamente todos os livros que, ao mícron, foram repostos ao seu devido lar. Até os que debaixo estavam foram repostos com extremo cuidado, com a excepção da almofada, que foi para lavar (e ao momento ainda não foi reposta). A caixa onde estava a moldura digital (que ainda continua a não ser usada) foi levada para o sitio dos livros da 2ª Guerra Mundial, para preencher o fosso que ali havia. Por intenção, os ditos livros da 2ª Guerra Mundial, a enciclopédia sobre a vida animal e o monte de revistas que estava por cima dele também foram parar a esse sitio acima dessa caixa. Só restavam os cortinados, que acabei por por e o móvel preto.

Com extremo cuidado tirei as caixas maioritariamente vazias e limpei cuidadosamente, sem produto, apenas pano, o pó que ali estava. Voltei a por as caixas e limpei, com ainda mais cuidado, como se tratasse de um artefacto perdido (e é o que é, embora apenas eu e mais uns quantos saibamos disso), os mapas todos que tinha ali. Aquela maquinação representa 6 anos da minha vida que obviamente não iria sequer correr o risco de perder. Com cuidado voltei a por o móvel no seu devido sitio e finalmente, tinha um quarto limpo (estava antes, mas pronto).

“Work it harder, make it better, do it faster, makes us stronger, more than ever hour after our work is never over” – Verdade absoluta do universo: Our Work is Never Over.

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