Aplicação da Estática no World of Goo

19 de Abril de 2010 at 16:53 (Bloco de Notas)

Bem, talvez pela primeira vez na história deste blogue, vou dar um contributo cientifico aos meus leitores. Deixem só correr o World of Goo que já vos vou explicar….

loading…

spinning violently around the y-axis…

meticulously diagramming fun….

swapping time and space…

filtering moral…

Bem, o World of Goo é um grandessíssimo jogo. Quer dizer, apenas ocupa uns 100 e tal MB, e também não tem gráficos de morrer, e também não é um jogo realmente popular, feito por aquelas empresas de renome como a Konami ou a EA….

…. então o que este jogo tem de especial para que esteja a escrever sobre ele e, muito mais, por o estar a relacionar com estática?

Bem, falando um pouco da história do jogo (o que sabemos que é proveniente da wikipedia, para vos poupar trabalho)…. Este jogo foi desenvolvido pela 2D Boy, que é, digamos, uma empresa independente que se formou quando dois homens, chamados Kyle e Ron, depois de saírem da EA, decidiram criar, sem a ajuda de grandes empresas, um jogo que todos pudessem desfrutar. O resultado é o World of Goo. O World of Goo foi lançado a 13 de Outubro de 2008 e existe para várias plataformas, como Windows, Mac, Linux ou até para a Wii. Foi bem recebido pela media internacional, tendo recebido bastantes criticas positivas e tendo ganho alguns prémios que o distinguem.

Então, falando do jogo em si. O World of Goo passa-se num mundo infestado de pequenos seres esféricos chamados Goo Balls e que percorrem o mundo (por alguma razão desconhecida). Eles fazem-lo criando estruturas nas quais as Goo Balls depois podem ser recolhidas por um cano hidráulico e podem prosseguir nas suas viagens. /yawn (não parece?), mas a melhor maneira de ver o jogo é talvez por um exemplo. Apresento-vos o 1º Nivel – “Going Up”:

Este nível, que por ser o primeiro, tem uma função de tutorial, explica metade do que se pode fazer no World of Goo: Temos uma estrutura no meio, por onde temos de ligar as Goo Balls umas a outras para chegarmos ao pé do cano, altura em que as Balls são aspiradas. A não ser que não tenham qualquer conhecimento de vida real, isto nem devia ser um problema (basta estar a empilhar as balls para cima e cima e cima…..). No entanto, se analisarmos isto de um ponto de vista mecânico, isto chega a ser um exemplo de estática, uma “estrutura articulada” (ou treliça) – uma estrutura composta apenas por barras e rótulas interligadas entre si. Como cada Goo Ball tem um certo peso e um movimento pelas vigas aleatório (a não ser que se use o apito, que depois irei explicar) e como cada ligação tem uma certa força elástica máxima (F = k*x, sendo k a constante elástica) podemos considerar esta torre como uma treliça em qual está a ser efectuada uma carga que podemos considerar uniforme.

Para acabar o nível…..

Como podem ver, a torre fez-se bem: comecei a construir um triângulo inclinado mas depois foi encurvando; aproveitei o ultimo para depois apanhar o vácuo do tubo e acabar o jogo. Agora falando de coisas mais sérias, e passando para o 2º nivel – “Small Divide”:

Provavelmente o melhor exemplo da aplicação de estática (e como melhor digo o mais compreensível) neste jogo. O propósito deste nível é simples: usar as Goo Balls para construir uma ponte para chegar ao ultimo lado. Aqui as coisas podem ser mais complicadas, já que o material que temos é finito e temos de acabar o jogo com 8 Goo Balls para recolher: fazer uma ponte demasiado resistente, ao gastar mais balls, pode impedir a finalização do nível; fazer uma ponte “à pressa” irá acabar por cair.

Em termos de estática, este é um exemplo típico: uma treliça suportada inicialmente por 3 apoios fixos (que tem um certo limite de esforço, já que bastante peso numa extremidade pode provocar o levantamento dos apoios) e onde se está a exercer uma carga constante (resultado do peso próprio da estrutura mais o peso das goo balls volantes). Este sistema é externamente hiperstatico e internamente isostatico (já que é composto por malhas triangulares). à medida que a ponte se vai desenvolvendo, devido à adição de cargas pelo lado direito da treliça, a reacção vertical vai diminuindo até chegar a 0 (altura em que a ponte acaba por sucumbir e cair ao precipício) ou até a parte direita da treliça chegar à outra parte, formando outros apoios fixos e em principio, concluindo o nível. A adição de mais uma goo ball à estrutura cria uma situação mecânica diferente da anterior e da seguinte, já que o numero de malhas e libertações aumenta ou diminui, conforme.

Em termos de resolução, sugiro que se realize a ponte o mais rapidamente possivel, aproveitando o momento em que uma curvatura imposta da ponte tende a estabilizar. No entanto, se se realizar tudo rectilineamente fica-se com algo do género.

Neste caso, a ponte fica a abanar no meio, devido ao movimento das goo balls, mas de resto, é um sistema estável.

Isto são apenas alguns dos exemplos que neste jogo existem, já que, honestamente, existem imensos níveis, dentro de 5 capítulos (cada capitulo representa uma estação, e de certa forma introduz um novo tipo de ball a ser usada, como a Beauty Ball, a Fire Ball, a Vector Ball, etc…), cada um com o seu quê de especial. Por exemplo, no nível “Graphic Processing Unit”, no chapter 4: “Information Superhighway”, o objectivo até chega a ser interessante e relaciona-se mais com física aplicada: as Vector Balls (as verdes) e as “Virus Balls” (as vermelhas, que tem a hipótese de se ligarem entre si, fazendo cadeias) tem de ser usadas para construir primeiro uma ponte desde o cordel solto até perto do cano, para depois enviar as Vector Balls, que serão sugadas pelo vácuo.

Embora não se consiga ver o cano, devido à dimensão do nível (embora ele esteja assinalado com uma seta), todas as bolas lançadas a partir da plataforma segundo um vector, tem depois uma trajectória elíptica, da mesma forma que os planetas giram à volta do Sol, não envolvendo qualquer conceito de estática mas sim de gravitação.

Falando agora de outro exemplo que referi anteriormente, o do apito. No nível intitulado “Whistler” todas as goo balls (que neste caso sendo condensadas, não podem fazer ligações) estão numa estrutura suspensa por um cabo. O apito “chama” as goo balls para o mais perto possível do apito, portanto redistribuindo as cargas. O objectivo consiste em apanhar as “Spit Balls” (permitem fazer ligações de tipo cabo) e depois usa-las na outra extremidade.

Para acabar isto mostro um ultimo exemplo de estática no World of Goo, o nível “Ode to the Bridge Builder”:

Está a anoitecer e as Goo Balls, desesperadas de passarem para o outro lado (provavelmente para descansarem depois de um longo dia de trabalho), encontram este obstáculo: um precipício gigantesco separa as duas margens….

Como fazer isto? Em termos estáticos, podem-se criar apoios na face vertical e depois construir encurvadamente. No entanto, e independentemente do método (a não ser que se seja extremamente rápido) a ponte acaba por cair e estabilizar, tendo de depois criar uma estrutura trepante, na outra face vertical. Acabar este nível com bastantes goo balls chega a ser difícil, pelo que o requerimento mínimo para este nível é de 8 balls (no entanto há que se ter conta que temos imenso material). Um resultado possivel seria este:

Tive alguns problemas… Decidi fazer 1 apoio vertical e construir para cima, no entanto, a carga era tanta que a estrutura encurvou e tive de reforçar, ao construir umas malhas entre o apoio e a parte da treliça “desencurvada”. Eventualmente, quando não podia construir mais em altura, construí horizontalmente. Tive de aproveitar a rotação e o momento da treliça para depois colocar, com alguma sorte à mistura, o apoio na outra face vertical. Acabei o nível com 26 goo balls 😛

Não vou falar mais sobre o jogo, senão estrago-vos a experiência. No entanto, há um aspecto do jogo que gostava de falar: a opção multiplayer. Neste ultimo caso, só eram precisas 8 goo balls para acabar o nível….. então, para onde foram as outras 18? A resposta é simples – todas as balls recolhidas em excesso vão para um pseudo-nível chamado World of Goo Corporation (que vai mudando conforme a progressão no jogo). Esse nível não tem objectivos e é uma espécie de “sandbox” onde podemos fazer tudo o que quisermos com as nossas 300 goo balls (máximo que o jogo permite). Basicamente, se estiverem ligados à net, podem tentar construir a torre mais alta do mundo e comparar os vossos resultados com milhões de pessoas pelo mundo inteiro. Se a memória não me engana, a maior altura já alcançada ronda os 56 metros.

Onde arranjar o jogo é convosco, mas se o arranjarem, joguem-lo: não perdem nada e se calhar (mas isto é um exagero horrendo) até praticam estática.

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