Um Dia no Alfeite

24 de Novembro de 2010 at 20:58 (Reminiscências de um Louco)

Bem, eventualmente este dia teria de chegar, até tendo em conta a minha idade (que provavelmente terei de actualizar numa nova página), mas o Dia de Defesa Nacional chegou, hoje e, portanto, lá fui eu ter ao Alfeite. (hoje sendo ontem, no momento desta publicação).

Um mapa satélite da Base Naval de Lisboa ou seja, do Alfeite.

O dia não começou da melhor das maneiras – isto por causa da chuvada que se sentiu na parte da manhã e também pelo frio que se sentia, não só na minha casa, mas na rua, de certa forma era amplificado pela humidade. Tomei um pequeno almoço numa pastelaria local e decidi passar um pouco do meu tempo a ver onde poderia comprar umas coisas. Eventualmente, teria de ir ter à câmara municipal e esperar pelo autocarro.

Curiosamente, embora reconhecesse umas 3 ou 4 pessoas que haviam na entrada coberta da câmara, devo dizer que já não as vejo há dois ou mais anos. Deveras, parece que, depois de ter saído do 12º ano, as pessoas que poderia ter tido conhecimento antes para mim não passam de estranhos, embora parciais, pois ainda guardo algumas memórias deles. Outra coisa que a minha memória não perdoa é, por vezes, a localização dos locais localizados. Por dizer em poucas palavras, não me lembrava onde ficava o Alfeite. A Base Naval de Lisboa (Base do Alfeite como é normalmente chamada) fica um pouco a este de uma das avenidas centrais de Almada, ligando a Cova da Piedade ao Laranjeiro. Uma viagem relativamente curta.

Chegando lá tivemos de aguardar um pouco, dando um temo ao ar livre para apanhar conversa. Provavelmente as duas únicas pessoas com quem terei tido uma conversa decente no dia todo foram dois dos meus antigos colegas da Emídio Navarro, um reconheço-o do Badminton a outra de Geometria Descritiva. Chovia, mas pouco.

Eventualmente chegamos à parte ribeirinha da base, onde estavam atracados os navios e submarinos. Ficamos por um edifício que aparentava ter sido desenhado exclusivamente para o efeito do Dia. Uns momentos fomos abordados por um militar (que mais tarde iríamos saber que se tratava de um Oficial do Exercito, Aspirante se não me engano) e por mais outros dois. Disseram-nos que íamos ter o privilégio exclusivo de observar o hastear da bandeira…

……Bem, algures neste post teria de dizer algo sobre isto, mais vale dizer agora – despachar tudo. Houveram 2 aspectos que demonstram, de uma maneira muito linear, o estado generalizado da juventude portuguesa. O 1º relaciona-se com a maneira como os participantes encararam o dia. Vejo pessoal muito desmotivado, dizem que preferiam estar noutro sitio que não aqui, que isto é uma seca (tendo em conta que provavelmente estariam na escola); vejo pessoal totalmente nas calmas e…. pronto, para não me estar a queixar muito, digo que no fim do dia ouvi alguém a fazer hum-um à alvorada que tocou no fim do recolher da bandeira. Pessoalmente, acho uma falta de respeito. Lembro-me há alguns meses, quando a RTP cobriu uma reportagem sobre a Festa do Avante (que também se realizou nesta margem), em que mais das pessoas que estavam lá não sabiam quem do PCP se ia candidatar para a Presidência, a missão e mensagem politica do PCP –  só iam pela festa. O Avante tem essa componente, não digo isso, mas a componente politica está lá. E é dever e direito dos cidadãos portugueses de participar na vida politica do pais. Se as pessoas nem sabem o que se passa no pais (sem contar com a Crise, que os media enfatizam muito) como esperam elas cumprir o seu dever cívico. Para arranjar um problema, tem-se de começar na fonte, e o problema da democracia em que vivemos pode bem residir nesta velha e nesta nova geração.

A outra coisa que me desagradou é algo mais pessoal. O fumo de tabaco é-me muito incomodativo – é acre, desagradável, cheira mal, deixa um sabor horrendo na garganta e, honestamente, não percebo como as pessoas conseguem fumar de todo, a não ser que já estejam apanhadas. É que durante o dia todo, ao sair do autocarro, era só ver pessoal a fumar. Devem ter havido tipos que devem ter fumado uns 5 ou 6 cigarros. Fumar ainda é legal, eu sei, mas mata. E pah, se se querem matar, há maneiras mais rápidas. Sem ofensa, mas o que me deve ter espantado mais é que, sendo Dia de Defesa Nacional, todos os que fumavam tinham 18. No fim de contas, a nicotina é uma droga. Legal, mas é, e mata. Gostava que os meus colegas de faculdade não fumassem também, mas tenho de respeitar as suas escolhas e esperar que, num dia, escolham o caminho que mais se lhes adequa.

Depois do hastear da bandeira fomos encaminhados para uns auditórios improvisados (depois de entregarmos as cartas de convocação) que por acaso eram bastante bons. A parte que mais notei estava no tecto, com um sistema de ares condicionados lindo de se observar (num ponto de vista de Hidráulica). Como em qualquer bom auditório, temos uma apresentação de PowerPoints. A apresentação foi parcialmente o meio de transporte de ideias, pois também requeria alguma participação (esta que, como leram atrás, era minuta). A 1ª apresentação consistia na apresentação dos oradores e do conceito e ideia por detrás do Dia de Defesa Nacional. Devo dizer que em algumas partes fiquei elucidado, porque desconhecia, ou então não sabia o suficiente sobre as Forças Armadas e os seus focos de operação. Existem guerras por todo o mundo, e estranhamente até os media nacionais só falam de Portugal uma ou outra vez, nessas guerras que temos tanta participação. Acho que gostamos mais dos Estados Unidos.

Depois da apresentação inicial, deram-nos algum tempo para tomar o pequeno almoço (o habitual pão com fiambre/queijo + café + leite + sumo) e depois prosseguir para a parte dos Fuzileiros. De facto, e pelo que percebi, era para irmos visitar uma fragata que tinham ancorada, no entanto, e devido às condições meteorológicas, essa parte foi cortada. Por acaso, e após reflexão, essa seria a parte que talvez tivesse esperado mais por ver, já que navios são, como pontes e barragens, grandes obras de engenharia.

Uma das coisas que posso ter notado na ida para lá é a grande distância entre as respectivas bases e, num extento menor, a proximidade das zonas residenciais à base. Uma pequena menção à grande expansão de uma zona designada suburbana que é supostamente o concelho de Almada. De certa forma o mesmo se passa com a Lisnave, agora com a sua reformatação como um centro de conferências. Chegamos à base dos Fuzileiros, que rodeava um recinto grande, estava a chover mais que o devido.

Um militar dos fuzileiros camuflado

A apresentação foi faseada. Numa sala decorada ao gosto dos Fuzileiros (penso até ter notado alguém camuflado com a distintiva rede verde), foi-nos dado a ver um filme dos Fuzileiros. Acompanhada por um ritmo e uma cantiga digna do seu ramo, foi-nos mostrada os pontos fortes de actuação dos Fuzileiros, incluindo a situação na Bósnia. Depois uma metade (metade que pertencia) foi encaminhada para uma sala adjacente, onde estavam em exposição os equipamentos padrão dos Fuzileiros. Começamos por ver as tendas, os meios de transporte anfíbio usados tanto pelos Fuzileiros como, e uma forma de camuflagem intrigante (não penso que se tenha referido muito a camuflagem de vigia, mas referiu-se o equipamento de vigilância nocturna, uma câmara equipada numa metade do rosto de uma pessoa, o que permite a visualização do rasto infravermelho de um corpo). Quase me esquecia de mencionar o equipamento base de um Fuzileiro que esteja numa missão de assalto aéreo. Basicamente, o que fazem é descer a partir de uma corda bastante grossa e resistente, apenas com umas luvas de cabedal e umas botas apropriadas. E isto pode obviamente incluir equipamento de de assalto (um aríete, p.e.).

Passamos depois a ver o equipamento que um Fuzileiro em acção deve usar – um colete táctico uma mochila, por ai fora. Algo que devo referir é que um fuzileiro que esteja a usar dito fato pode bem ficar quieto a beber, pelo menos, devido a um tubo integrado no colete táctico – grande vantagem em missões de observação. Ao perguntar quanto pesava dito colete, o apresentador deu-me a ver o colete. De facto, é bastante pesado, chegando aos 15 kg. Não é algo que me admire, pois o Kevlar é pesado, mas, de qualquer maneira, é algo que, visto de perto, espanta, pois alguém em acção, teria de usar o equipamento todo mais arma, ou seja, uns 50 kg, no mínimo, durante períodos de tempo que podem chegar aos 5 dias. Rações de combate, equipamento de protecção contra ataques químicos e as garrafas de gás dissuasor (lacrimogéneo é o único que me lembro no momento). Depois passamos à parte das armas, que aparenta ser o que mais interessou o pessoal (já que uma parte ficou a ve-las depois de o resto do grupo ter prosseguido).

Um modelo da arma que referi no texto, sem lança-granadas

Uma pequena menção às armas. Grande parte delas, senão todas, podem-se ver fielmente em jogos como Stalker: Shodow of Chernobyl. A razão porque coloco este jogo aqui é talvez pelo realismo, pois respeita em muitos casos, as especificações base das armas, incluindo munição entre outras coisas. Mostraram-nos primeiro as metralhadoras (cujo ritmo de fogo é cerca de 1200 munições p.segundo)  e depois passamos ás armas semi-automáticas. Talvez a que desse mais interesse, na minha opinião, é a G-36 – uma arma grande, a única com mira e lança-granadas incluído. Fomos depois por um lança-granadas (se me lembro, era um AK-41) e um morteiro de cano longo. Armas, em geral, são também exemplos de engenharia mas desde os anos 1800 o seu desenho é muito idêntico ao anterior. Mecanismo de disparo, refrigeração e precisão – as três únicas coisas necessárias a uma arma deste tipo.

Foi-nos dada uma visita geral à base, na companhia do dito oficial que nos tinha dado inicialmente a apresentação. Para já, o tamanho da base é grande, sem duvida maior que o campus da FCT. Faz facilmente o tamanho dela vezes 4 ou 5. No entanto mais de metade é área coberta. Foi-nos dado a explicação que os militares que frequentavam a base usavam os campos como percursos de manutenção. Também mostraram-nos a grande variedade de áreas de lazer e de prática de desportos; talvez o que se destacou mais foram a quantidade de piscinas. Uma parte que nos mostraram foi a parte de formação e investigação. De facto, destacam uma área significante da base a edifícios de investigação, o que se destaca mais por mim seria o de engenharia electrónica e de armas. Mostraram-nos depois o departamento de Prevenção de Avarias e os tanques de simulação. Foi-nos dita que, num aspecto, os militares teriam de trabalhar rodeados de fumo proveniente pela queima de gasóleo de modo a apaga-lo. É algo realmente duro e o facto é que poderá acontecer.

Uma das fragatas em uso pela Marinha

Acabamos a visita à base pela vista, dentro do autocarro, das corvetas e fragatas ancoradas lá. Também estavam lá umas dragas e um navio-escola. Um facto interessante é que os navios que não são de guerra são pintados de branco, enquanto que os que são, são pintados a cinzento. O que deve ter interessado mais foi a vista dos submarinos ancorados lá, estando lá o tão-famoso Tridente (o submarino de nova geração na qual o estado gastou alguns milhões de euros). Também estava lá ancorado outro submarino, o Barracuda, mas esse já estava datado. O tridente tinha um aspecto interessante em termos de engenharia, o facto de funcionar com 2 tipos de combustível – o gasóleo simples (se querem que vos explique porque usam gasóleo em vez de gasolina, estudem Física e Termodinâmica e ficam com a vossa resposta) e, intrigantemente, uma célula de hidrogénio, que permite o funcionamento silencioso do submarino.

Outra das fragatas em uso pela Marinha, esta ancorada no dia, na base.

Em comparação com os modelos anteriores, cujo funcionamento limitava-se aos 30 dias, o Tridente tinha um funcionamento máximo de 50 dias, o que pode dar uma vantagem especial em situações complicadas. Foi-nos explicado que os submarinos serviam não como elementos de guerra mas dissuasão, já que, dado o conhecimento que eles existem e estão operacionais, torna-se mais difícil para qualquer ameaças (foi-nos dado o exemplo dos traficantes de drogas) entrarem no pais, por via marítima. Alguns dos navios estavam a ser usados actualmente nas operações europeias de manutenção de paz na costa da Somália e em breve iam para uma nova missão lá.

NRP Tridente

Fomos almoçar. Para surpresa, todos os refeitórios tendem a ser iguais. Ok… não tanto uma surpresa. Mas foi uma surpresa a comida servida – bife grelhado com batatas fritas, arroz e um ovo estrelado. Pressuponho de imediato que fosse devido ao dia, já que estávamos a almoçar numa parte separada da do resto do pessoal da base, mas na próxima apresentação, foi-nos dito que esta é uma das bases onde se come melhor. A única queixa que tenho a realizar seria a de a comida esfriar muito, talvez devido a uma porta aberta que estava a deixar entrar uma corrente de ar. Facto seja dito, o almoço foi-nos dado.

Próxima apresentação – Tipo de profissões disponíveis nas Forças Armadas (Exercito, Força Aérea e Marinha) e como ingressar nelas. Para não falar muito nelas (até porque estão todas disponíveis nos sites respectivos) digo que as Forças Armadas requerem habilitações muito baixas (no geral e para praças – os escalões mais baixos), assim como põe a idade máxima de entrada muito baixa também (penso ser um máximo de 25 anos, já que querem que as pessoas estejam em quadros permanentes o maior tempo possível – lógico, dado ao treino especifico que têm de dar aos recrutas). Digo eu que com as vantagens laborais, de empregabilidade e de apoio social que eles dão, poderia-se remediar grande parte do desemprego em Portugal… talvez as pessoas que estejam desempregadas já estejam demasiado velhas.

Realizamos um questionário sociológico; perguntas absolutamente normais tendo em conta o dia. Tivemos um lanche, adquirimos a cédula militar e assistimos a cerimónia do recolher da bandeira.

Entramos no autocarro e saímos na câmara, terminando o nosso dia. Acabei por escrever este post em dois dias, muito à extensão dele. Uns sites de interesse são http://www.marinha.pt http://www.exercito.pt http://www.emfa.pt e http://www.mdn.gov.pt que são respectivamente os sites da Marinha, do Exercito, da Forca Aérea e do Ministério da Defesa Nacional. Com este post não devia, nem quero encorajar nem desencorajar a entrada nas Forças Armadas. De facto e embora que neste canto do mundo relativamente pacifico não tenhamos a ver muita acção militar, Portugal é um pais que tem activamente participado em várias acções de manutenção de paz (Kosovo, Bósnia, Afeganistão, Somália). Em parte penso que a comunicação social sombreia a acção de Portugal em relação à acção de outros países como os Estados Unidos, que tem sempre tido um peso grande no mundo. O facto é que, desde o tempo da formação do Reino de Portugal, bastantes pessoas morreram em defesa do que elas acreditavam ser seu. Eventualmente sempre haverão guerras, porque, no mais simples das questões, estaremos sempre em guerra contra nós próprios, num caminho para atingir o nosso potencial máximo como seres humanos.

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2 comentários

  1. Cristian Mitul said,

    LIIIINDO!

  2. Jorge Barreto said,

    tambem gostei muito de ir la no ano passado, eu visitei a fragata! muito fixe

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